Capítulo 25
ETTORE
Se não fosse o remédio de insônia, a noite teria sido pior. Acordo me sentindo exausto, embora o remédio sirva pra me acordar mais disposto também. No entanto, não tem como ficar disposto com a noite pesada de ontem.
Abro minhas cortinas com o controle. O sol está começando a nascer. Tori fica se acariciando em mim, contente que acordei, não pedindo comida. Sua ração é automática: a máquina derrama a ração nos horários marcados para a refeição. Tem bebedouros automáticos espalhados pelo apartamento. Preciso só recolher o cocô e xixi das caixas de areia antes de sair pra faculdade. Um funcionário é quem limpa as caixas de mês em mês. Minha porta do quarto tem uma pequena passagem pro Tori, que posso fechar caso eu não queira que ele entre.
Beijo a cabeça dele. “Eu deveria adotar um novo bebê, né, panterinha? Pra você se sentir menos sozinho.”
Ele mia, como se concordando. Sorrio sonolento.
Primeira coisa que faço antes de ir para a faculdade é usar o banheiro: tomo uma ducha e cuido da pele.
A caminho da aula no meu Mustang, avisto Magdala em um outdoor, modelando para uma marca famosa de chocolate caro. Aperto minhas mãos no volante, lembrando do cheiro dela misturado com o morango do sabonete nos seus seios. Magdala e eu perseguimos um ao outro.
Chego na faculdade e vou direto para a cafeteria comprar café da manhã, já que fiquei com preguiça de preparar comida em casa. Saio da cafeteria carregando um cappuccino gelado pela metade.
“O remédio não te fez dormir bem?” Chaewon me pergunta ao me encontrar na escada dentro da universidade.
Estou de óculos escuros e ainda assim minha amiga nota meu cansaço. O quão diferente eu fico? Só espero que eu continue sexy.
“Quase levei uma facada no rosto ontem, então o que acha?”
Ela sabe o que aconteceu porque lhe enviei mensagem antes de dormir.
“Como está Jasmine?” prossegue enquanto subimos as escadas.
“Ainda segura com a irmã.”
MAGDALA
Passo a aula me decidindo se vou atrás de Ettore para conversar sobre nossos pais serem sócios. Ele já está sabendo? O que está achando disso? Até onde sei, nossos pais não são amigos. Os D’Angelo sabem algo que eu não sei sobre meu próprio pai.
Quando a aula termina, envio mensagem para Luigi, mentindo que sairei com Antonella. Fico encostada no Mustang de Ettore, esperando-o.
A cada passo que ele dá na minha direção, minha ansiedade diminui.
“Precisa de carona?” seu tom não corresponde sua expressão. Ettore está surpreso que estou aqui.
Eu o evitava na faculdade por causa de Luigi. Hoje, que se foda.
“Está sabendo que nossos pais serão sócios?” questiono.
“Descobri de um jeito maravilhoso,” Ettore abre a porta do carro, jogando sua bolsa no banco passageiro. Se vira pra mim, apoiando o braço na porta aberta, “Deixa eu adivinhar: seu papai não quer que você se envolva comigo.”
Fico na defensiva, “A polêmica causou controvérsia.”
Ettore ri alto. “É, até controvérsia faz seu pai tremer nas bases. Se ele não estiver sempre ‘do lado certo’ da situação para o público e mídia, é capaz de se engasgar até morrer na própria covardia. Acontece que seu papai nunca esteve do lado certo, Magnólia. Ele sempre foi um covarde.”
Não suporto mais esse mistério. O que Ettore sabe, porra?!
“Não faça alguma merda pra ferrar meu pai,” ameaço com covardia.
“Ele ferra a si mesmo, srta. Delacorte.”
Não quero nunca mais ouvi-lo me chamar assim, me igualando as pessoas que meus pais andam.
“O que ele ser corrupto muda na sua vida? Seu pai com certeza não é nenhum santo. Toda aquela caridade deve ser alguma fachada.”
Ettore bufa uma risada obscura. “Você não tem ideia.”
Eu quero que ele revide. Que diga que estou errada. Que defenda seu pai como defendo o meu. Estou tentando atingir um nervo do Ettore para que eu me livre dessa sensação de estar defendendo um homem que supostamente conheço: meu pai. Não quero lidar com o nó no estômago que estou sentindo por defendê-lo.
“Sabe, Magnólia,” Ettore põe os óculos escuros, “você não precisa defender seus pais pra ser uma boa filha.”
Mas essa é a questão: por que eu não defenderia eles? O que meus pais fizeram de tão ruim comigo, que já imaginei dando um tiro neles? É como se eu soubesse de verdades que nunca presenciei. Minha intuição não deve ser tão boa assim, certo? Eu só devo estar perdendo a cabeça.
“Seu papai sabe de polêmicas suas, paga por sigilo, mas morre de medo de você se tornar um problema para ele.” Ettore entra no carro. “Ele pode até ter orgulho de suas conquistas, como você ser uma empresária competente, mas ele aprova mais seu status do que quem você é.”
“Não precisa me dizer isso.” Porque já estou dentro daquele túnel.
Ettore fica me encarando através das lentes antes de prosseguir, “Vai precisar da carona?”
Vim com Luigi e Antonella já deve ter ido embora, mas posso chamar meu chofer. De qualquer forma, meu pai não iria gostar de saber que Ettore foi me deixar em casa.
“Não, vou chamar meu chofer. Obrigada.”
Vou encher minha cabeça de estudos e Magnificent pelo resto do dia.
ETTORE
Magdala disse que eu não precisava falar aquilo, então significa que ela já caiu na real. Desde quando? E como aconteceu? Ela apenas fica se forçando a defender o pai.
Saio do banho e pego meu celular na cômoda por hábito, mas vejo que perdi ligações da Chaewon e que tem mensagens dela não lidas também. Retorno a chamada.
“Eu quero que você venha aqui em casa agora,” ela atende já falando. “Tô falando sério. Agora mesmo.” Pela sua voz, sei que está nervosa, com raiva, com medo e desamparada.
Visto uma camiseta e jardineira, então dirijo pro seu loft. Quando chego, minha amiga já está na porta me esperando de braços cruzados. Ela ainda está vestida com o look que foi para a faculdade.
“O que foi que eu fiz?” tento amenizar o clima tenso.
“Hoje não tem motivos pra brincadeira. Entra.”
Sua casa sempre me parece um ambiente pacífico, mas não hoje.
Retiro meus sapatos no hall de entrada e sou seguido por Win se esfregando nas minhas pernas. Minha amiga e eu nos sentamos nos bancos da ilha da cozinha.
“Cheguei da faculdade, peguei a correspondência e recebi isto,” Chaewon arrasta um envelope na minha direção.
Abro. Digitalmente, tem escrito:
Miados de dor
Meu cenho franze mais.
“Tem alguém brincando comigo, Ettore. Alguém querendo me aterrorizar. Aquilo com meu carro não foi uma brincadeira de mau gosto. E eu sabia que não era, pois poderíamos ter morrido, mas quem poderia estar fazendo isso comigo? Pensei nos meus vizinhos, mas porra, não sei. Que merda tá acontecendo?”
Quero tirar as mãos dela da testa e segurá-las para tentar lhe confortar.
“Que horas o carteiro passou?” interrogo, vendo que a carta não tem remetente.
“Acho que umas nove da manhã,” ela responde. Pega o envelope de volta, “Não quero mais chamar a polícia, pois acho que é coisa que os Pratas têm como resolver. Nem que eu pague, quero que vocês obtenham cada filmagem da rua, de qualquer casa daqui, de todos os ângulos. Mande seus colegas gênios do crime investigarem essa porra,” Chaewon bate a carta no meu peito. “Não quero meus filhos sofrendo consequências pelas merdas que você faz.”
Ela tem razão em acreditar que as consequências estejam sendo por minha causa. As pessoas têm problema comigo, não com ela. E se eu descobrir que alguém tem problema com ela, esse alguém terá problema comigo.
ETTORE
Na residência dos Pratas, investigo mais a carta. De luvas para não estragar as outras digitais, tento encontrar algum código nas palavras, entre as letras. SM, MS, SeMi, MiSe, Mia...
Estou frustrado. É tarde da noite e nenhuma digital que encontramos se tornou uma pista. A frustração vem também de não entender o porquê disso estar acontecendo com Chaewon. É mais provável estarem usando-a para me atingir.
“Conseguiremos acesso de todas as filmagens amanhã,” Vit entra na sala.
Nossa gangue está entrando no sistema da rua toda.
“Tem alguma chance de ser Luigi?” meu mentor questiona, lembrando da nossa briga na casa de fraternidade.
O cara tem ciúmes da Magdala comigo e eu o humilhei na frente de todo mundo, então sim, tem chance de ser Luigi. Além de que é a cara dele escrever ‘puta’ no carro da própria namorada.
Guardo a carta, retiro minhas luvas, e respondo, “Mesmo que ele pareça burro demais pra isso, quero que o investiguem também, pois ele pode ter contratado alguém bom pro serviço.”
“Foi o que eu pensei.”
