Capítulo 26
ETTORE
Faltei aula para me concentrar nas investigações com os Pratas. Não conseguiram respostas nos correios. Não conseguimos encontrar nada suspeito nas gravações. Continuamos sem pistas.
Anoitecendo e finalmente em casa, ligo para Chaewon, pra atualizá-la. Ela conta que, desde ontem, já instalou câmeras pelo seu loft, que poderá assistir através do celular para saber como seus gatos estão. Se alguém invadir, agora tem como saber. Não dá alívio, porém, dá uma ideia de segurança.
“Estou indo pra um aniversário,” ela informa em seguida.
“Quê? Que aniversário?”
“Sei lá. De uma filha de uma magnata aí, uma mãe política. Dario foi quem me lembrou. Preciso de distração. Aceita ir?”
Também preciso de distração. Devido ao estresse da semana, meu corpo implora por alguma substância tóxica.
“Já tomei banho, então vou me arrumar. Me envia o endereço.”
Escolho brincos de pérolas, assim como o anel, e luvas compridas de renda preta. O tempo que me arrumo, que compro o presente numa loja de grife e o tempo que demoro a chegar na festa levam quase três horas.
A mansão tem bastante a cor dourada e luzes quentes. Balões transparentes que parecem bolas de sabão gigantes estão espalhadas pela festa. Os tetos possuem lustres em formato de candelabros.
Chaewon vem ao meu encontro. Sua gargantilha de rubi e granada parece sangue escorrendo pelo pescoço. Acredito que é como esteja se sentindo com o que está acontecendo na sua vida.
“Não tem drogas, mas os pais da garota liberaram vapes de vários sabores. Dario está com a Antonella em algum lugar.”
“Estão se pegando finalmente?” ofereço meu braço a ela.
“Não sei,” ela aceita envolver seu braço no meu. “Espero que sim. Mas eu gostaria de estar no meio deles.”
Sorrio.
Caminhamos juntos pela festa de braços dados. Aceito um drink de um garçom que passa.
“Quem veio também foi o Sérgio,” Chaewon prossegue.
“Merda, não bati nele direito.”
Ela dá um tapa no meu peito. Eu rio.
Após eu parabenizar a aniversariante, nos encaminhamos para uma parte mais próxima da piscina, onde tem uma galera conversando, uma pessoa boiando e um casal se pegando.
Do outro lado, avisto Magdala, que está vestindo uma blusa cropped de ombros à mostra, toda detalhada em renda preta, mangas curtas sobrepostas pelas mais longas, botões dourados, um cinto grosso na cintura, uma saia tule longa com um mini short por baixo e uma tiara estilo coroa. Ela fuma um vape em pé encostada num pilar, sem prestar atenção no papo do seu namorado com os colegas. Sinto vontade de tirá-la desse tédio, conversar com ela em um lugar reservado, fazê-la se sentir uma rainha.
“Achei eles!” Chaewon exclama.
Olho na direção que ela aponta. Dario e Antonella estão jogando na quadra de tênis.
“Pelo menos estão descalços,” comento enquanto avalio o look caro deles.
“Vamos lá ser a torcida deles,” minha amiga me puxa.
MAGDALA
Era pra eu estar dançando ou sei lá. Antonella foi dançar com Dario, depois não vi mais pra onde foram. Passa pela minha cabeça cair na piscina com roupa e tudo e me afogar. Melhor do que ficar parada aqui com meu namorado.
Sinto um dedo me cutucar na cintura. Já me irrito, mas quando me viro na direção da pessoa, vejo Asami e então minha boca se curva num sorrisão.
“Não acredito!”
Abraço minha amiga que não vejo há meses.
“Senti saudade também! Voltei de viagem faz pouco tempo.”
Asami é filha de um desembargador japonês e visita os avós no Japão de tempos em tempos.
Quando o abraço termina, não nos soltamos. Damos um selinho afetuoso. Ela tem minha idade, é bi como eu, foi a primeira garota que beijei e minha primeira vez com uma mulher. A lembrança de nós fazendo tesoura passa deliciosamente pela minha mente. Sua presença me tira do tédio instantaneamente.
“É a Yamazaki?” um dos colegas do Luigi nos atrapalha.
“Oi, e aí?!” ela acena uma mão, mas logo retorna a focar em mim.
“Estou feliz em te ver e—,” abaixo a voz, “aliviada que você apareceu, pois eu estava morrendo de tédio.”
Asami dá uma risadinha.
“Por que não foi jogar tênis com a Antonella, então? Me disseram que viram ela indo pra quadra.”
“Ela tá jogando tênis? Então bora lá!”
ETTORE
Reconheço a garota bonita que está com Magdala. Já vi elas juntas de vez em quando. Queria não lembrar que sei detalhes sobre a vida da socialite empresária. Eu a evitava constantemente, mas memorizava quase tudo sobre ela.
Como pausam o jogo pra Antonella receber a amiga, decido sair da quadra para pegar um novo drink e escolher um vape. Meus amigos não me acompanham, mas sinto alguém me seguindo pelo pequeno bosque.
Me viro pra saber quem é. Tenho o desprazer de ver que não é Magdala e sim Sérgio. Estamos sem plateia, pelo menos. Seja lá o que ele queira, não quero lidar com meu pai reclamando de eu ter quase matado o jogador uma segunda vez.
“Quando acordei, eu não sabia o que tinha acontecido,” Sérgio menciona ter ficado inconsciente com o golpe que dei.
“Os dentes novos não ficaram muito legais e o nariz quebrado dava mais charme,” provoco.
“Tu é terrível, né?”
“Depende,” deixo o copo de vidro num banco. Cruzo os braços, “Vá direto ao ponto, que eu tenho o que fazer.” Me distrair mais das merdas que estão acontecendo.
Sérgio se aproxima, “Só queria olhar tua cara uma última vez antes de arrebentar ela.”
Reviro os olhos. Esses caras sempre acham que têm que provar alguma coisa.
“Você mexeu no carro da Magdala?” mudo de assunto, pois este é muito mais importante. Por via das dúvidas, preciso saber se existe alguma relação com o que está acontecendo com Chaewon.
“Porra, de novo isso. Já expliquei pra essa puta que não fui eu.”
Dou um tapa na cara dele. Tapa é mais humilhante que soco. A luva não impede que doa.
“Seu filho da puta!” ele avança em mim.
Desvio de seu corpo e entorto seu braço, paralisando ele de dor. O grito não é alto o suficiente para ser ouvido pela festa, pelo menos.
“Já quebrei seu nariz e dentes. Não me faça quebrar seu braço também.”
“Ok, parem os dois,” Magdala aparece das sombras.
Solto o jogador, que cai de joelhos no chão, segurando o braço. Oh drama.
“Cai fora, Sérgio,” ela manda sem paciência.
Putinho, ele obedece.
Ficamos a sós. Estou prestes a fazer uma piadinha como ‘ahhh, me diverti pouco com ele’, quando repentinamente sinto uma onda de enjoo. Vomito em um arbusto. Que porra é essa?
Magdala está agora ao meu lado, com uma mão tirando meu cabelo do rosto, tentando checar meu estado.
“Não está pálido, mas o que você tomou?”
“Só um drink,” respondo, sentindo o gosto ruim do vômito. Olho pra ela com a respiração um pouco irregular, e brinco, “Talvez você seja minha substância tóxica, Magnólia.”
Ela tira a mão do meu cabelo. “Não tem nada de erótico nisso.”
Não era intenção ser. O único erotismo que desejo no momento é que ela ponha uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Quero rever seu olhar de preocupação comigo. Nada erótico também.
Provoco, “Me procurou por erotismo, foi?”
“Vim porque queria saber se você já está sabendo que nos veremos amanhã no golfe com nossos pais.”
Sinto outro tipo de náusea. Meu pai me ligará hoje ou amanhã cedo pra me avisar que meu funeral está marcado.
“Pode chamar a Chaewon pra mim, por favor? Somente ela.”
ETTORE
“Você comeu direito hoje?” minha melhor amiga checa minha temperatura enquanto estamos sentados no revestimento de mármore de uma banheira da mansão da aniversariante.
“Acho que sim.” Não lembro de muita coisa além das investigações.
“Seus colegas já estavam fazendo o serviço. Especifiquei que eles trabalhassem nas investigações. Você não precisava ter se esforçado tanto,” ela segura minhas mãos. “A semana foi estressante. O vômito foi emocional.”
O que está acontecendo com Chaewon está me afetando mais do que imaginei.
“Se tiver acontecido alguma coisa com seus gatos quando você voltar pra casa, ficarei muito péssimo, Chae.”
“Eu sei, mas não paro de checar as câmeras.” Ela segura meu rosto com as duas mãos, “Eu te amo muito, Ettore. Você é meu melhor amigo desde quando éramos do maternal. Você esteve comigo quando me descobri não-binária e me aceitei gênero fluido e em todos os outros momentos da minha vida. Eu sei que você está se empenhando pra descobrir o que está acontecendo.” Ela me dá um leve tapa no braço, “Não fica nervoso nesse nível de até vomitar.”
Consigo dar um leve sorriso. Por amor a mim, minha melhor amiga guarda meu segredo crucial, que é tão perigoso e que pode afetar suas relações por ela ter que manter escondido das pessoas. Mas ela nunca deixou de me apoiar. Chaewon significa o mundo pra mim.
“Eu também só estou fingindo me distrair,” ela conta. “Saí de casa morrendo de medo. Segurei o choro no carro antes de me forçar a dirigir até aqui. Meus gatos são meus bebês.”
Trago-a para um abraço, “Entendo.”
“Eu sei,” sua voz abafada mostra que está quase chorando.
Somos interrompidos por uma ligação. Meu corpo fica rígido. Me desfaço do carinho já imaginando quem seja. Pego meu celular.
“É a ligação que eu sabia que iria receber.”
Atendo.
“Não poderia mandar mensagem?” reclamo com meu pai.
“Você demora a responder minhas mensagens. Agora presta atenção: amanhã à tarde, iremos ao golfe com Tiberius e sua filha. Chegaremos antes para causar uma boa impressão. Esteja pronto às 12:00.” E ele desliga.
Terei que me controlar para não matar Tiberius Delacorte com um taco de golfe.
