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Capítulos de MAGMA

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Capítulo 27

ETTORE

 

O clube de golfe é um extenso terreno que fica próximo a um lago. O sol desta tarde de sábado não está escaldante, nem muito forte. As árvores balançam mais com o helicóptero dos Delacorte chegando. Eles pousam no gramado em que eu e meu pai esperamos.


Tiberius desce primeiro. As cores do ambiente são tão vibrantes para a morte que estou sentindo por dentro. Não consigo renascer nem quando Magdala aparece.


“Tiberius. Sempre com grande estilo,” meu pai elogia sua aparição, indo na direção dele.


“Go big or go home, não acha?”


Vá grande ou vá pra casa, é a tradução literal do que Tiberius disse. Eu quero que ele vá é pro inferno.


Enquanto nossos pais se cumprimentam, dou atenção a Magdala, que fica mais próxima ao assistente que veio junto, com expressão neutra, usando blazer cropped, calça plissada e cabelos presos num rabo de cavalo. Lembro de quando enrolei seu coque no meu pulso. Como seu papai se sentiria ao saber disto?


A mão repugnante é estendida na minha direção. Olhar para Tiberius é tenebroso. Estou de óculos escuros pra evitar contato visual. Forçadamente, aceito o cumprimento dele.


“Minha filha me contou de suas notas altas. Mas será que pode me vencer no golfe?” o assassino da minha mãe age com camaradagem comigo.


“Sou bom com bolas,” provoco fingindo inocência. Levarei um soco mais tarde.


De soslaio, noto Magdala esconder um sorrisinho.


Meu pai pigarreia. “Que tal já iniciarmos uma partida?”

 

 

Aqui estão dois homens que secretamente se odeiam, mas que estão fundindo duas empresas juntos, se tornando sócios e jogando golfe como amigos de longa data. E aqui estou eu, no meio dos dois homens que mais abomino no mundo.


Estou perdendo para Tiberius. Não sou um cara orgulhoso, mas quando se trata deste homem, me torno competitivo.


“Me deixou intrigado o motivo de você ter arranhado a Ferrari do namorado da minha filha,” Tiberius conversa comigo.


Não gosto do seu tom de voz. Esconde o que realmente está fazendo: me avaliando, me investigando. Minha vontade é de enfiar o taco de golfe na goela dele, ver seu sangue derramando, sua respiração parando, seus olhos perdendo brilho e sua vida acabando.


“Eu também dou trabalho, papai,” Magdala me defende.


Ela também percebeu que seu pai está atuando. Mas por que me defendeu? Mandou eu não fazer alguma merda que ferrasse seu papai, mas me defendeu assim que ele começou a mexer comigo.


Dou uma desculpa, “Não me dou bem com jogadores de futebol, deputado. Treinei a minha infância toda, mas não suporto a falta de elegância desses caras.” Não é mentira.


“E o que tem de elegante destruir um carro?” ele retruca ainda aparentando sereno.


“Ora, eu estava bonito enquanto fazia.”


Magdala deixa escapar uma risada. Meu pai aparenta querer me bater com o taco de golfe.


“Ettore, vá tomar um sorvete,” ele sugere como se eu fosse uma criança.


“Quero também,” Magdala avisa ao pai.


Entregamos os tacos ao assistente dos Delacorte e então nos direcionamos ao carro de golfe. Reponho meus óculos escuros quando sento no banco do motorista.

 

 

Dirijo em silêncio pelo campo, sabendo que Magdala está me observando.


“Você fica com uma aparência mais jovial com essa maquiagem suave. Não é exatamente um elogio, pois gosto das suas maquiagens mais visíveis. E é estranho te ver de camisa polo. Não combina. Mas pelo menos te deixa uma peituda metida.”


“Está olhando pra os meus peitos, Magnólia?” provoco sem tirar os olhos do campo de golfe.


“Você já viu os meus.”


“Já toquei nos seus.”


“Só dirige, Ettore.”


É, dirigir com tesão não é uma boa ideia.


Chegamos no restaurante do clube. No canto próximo ao caixa, tem um freezer de sorvetes e picolés. Magdala escolhe um sorvete de casquinha e eu escolho um picolé de chocolate com avelã. Nunca imaginei que estaria fazendo algo doméstico com Magdala Delacorte.


Pagamos com a conta dos nossos pais e nos sentamos de frente um para o outro em uma das mesas próxima a janela com uma bela vista do lago. As cores do ambiente enfim se tornam vivas para mim neste dia que poderia ser perfeito para eu cometer um crime contra um político. Mas não deixa de ser preocupante o conforto que estou sentindo com Magdala aqui. Percebo que eu tinha uma mão na sua lombar antes de me sentar.


Ela dá uma lambida no sorvete me encarando, me provocando, fodendo a paz. “Como vai sua rixa com meu pai?”


Essa vai se arrepender feio por brincar com a índole do pai.


“Rixa,” repito sem graça alguma.


“A tensão entre vocês dois é palpável,” ela comenta pensativa.


É evidente o quanto ela quer entender meu problema com seu pai. Como se ele ser um político corrupto não fosse o suficiente pra detestá-lo. Magdala é inteligente. Ela sente que tem algo a mais na história. Sua intuição não é falha.


Despisto ela, “Seu papai não quer a filhinha se envolvendo com um porra-louca como eu, como se o namorado dela não tivesse que estar na cadeia.”


“Meu pai só vê Luigi como um playboy meio burrinho que dá vantagem a ele na mídia-política por causa de seus pais políticos. Bem, Luigi é um playboy meio burrinho.”


“Me pergunto como esse relacionamento se iniciou. Parece namoro arranjado.”


“Quase isso. Luigi me enchia o saco. Nos pegamos em umas festas, paparazzis publicaram momentos nossos, a mídia-política aprovou, meus pais gostaram por causa das vantagens, então me senti pressionada a namorar com ele. E agora não consigo me livrar.”


Posso matá-lo pra você, quase solto.


“Mas eu gosto de humilhá-lo,” ela finaliza.


Claro que gosta.


“Como está a Ferrari dele?” pergunto, sorrindo de lado.


“Ganhou uma LaFerrari. Mas o soco que eu dei nele naquela noite e o estrago que você fez no carro dele são coisas que ele jamais esquecerá.”


Fico sério, “O que ele fez?”


“Colocou um dedo em mim pra saber se eu estava molhada, como se isso fosse prova de traição.”

Assassinar Luigi deveria ser uma das minhas missões.


“Me deixa experimentar seu picolé. Isso soou sexual? Ah me dá logo isso,” ela tira o picolé da minha mão, me arrancando do meu instinto assassino com seu jeito adorável.


“Quero experimentar a casquinha,” peço. “Tem chocolate dentro.” Sou chocólatra.


Ela me entrega seu sorvete. Um absurdo o que está acontecendo entre nós dois. Em um minuto estamos falando de assuntos importantes, em outro estamos dividindo doce. Não éramos pra estar fazendo nada dessas coisas.


Dou uma mordida na casquinha. A crocância e o chocolate recheiam minha língua saborosamente.


“Meu pai deve estar tranquilizando o seu sobre mim,” devolvo seu sorvete e Magdala o meu.


O problema não é somente minha reputação. Meu pai teme o deputado desconfiar que eu sei que ele assassinou minha mãe. Mamãe nunca revelou ao amante que contou ao filho dela sobre a traição, entretanto, sei que tenho que ser cauteloso para Tiberius não desconfiar demais que eu repudio sua existência. Ele relacionaria isto a minha mãe. Meu pai teme por si próprio.


“Vamos retornar antes que eles pensem que estamos nos pegando,” Magdala sugere, se levantando da cadeira.


Me levanto em seguida, “Seu pai faz slut-shaming contigo?”


“Não que eu saiba. E o seu?”


“Até na minha cara. É que ele relaciona meu estilo de vida a bissexualidade.”


“Que homem podre.”


Melhor pararmos. Estamos conversando assuntos pessoais, passando uma tarde juntos e agora sentindo empatia demais um pelo outro. Tenho que me concentrar na próxima partida de golfe.


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