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Capítulos de MAGMA

Público·151 Leitores

CAPÍTULO 10

MAGDALA

 

Uma galera da faculdade organizou uma festa qualquer nesta noite de quinta-feira num bar de luxo, portanto, cá estou eu com Antonella e Luigi pra farrear. Paparazzis tiram fotos de nós saindo da Ferrari. O público e a mídia vão curtir.


Apesar das cores marrom e luzes quentes, o bar tem uma aparência mais jovial em vez do clima de velhos ricos que fumam charuto. Está tocando músicas de rock dos anos 70 e 80.


Nos sentamos em uma mesa com uns colegas da faculdade, cumprimentando cada um, alguns logo retornando a suas conversas.


“...e é por isso que faz sentido: a terra é plana,” um dos caras que esqueci o nome explica.


A noite já começou com terraplanistas. Que merda.


“Um desrespeito a ciência,” Antonella também já se desanimou. Ela cursa Química, mas também se interessa por ciência.


“Ah deixa de ser chata, Ant!” o cara branco reclama, cerveja erguida, dispensando-a.


Ninguém confiável chama minha prima por esse apelido. Basicamente a chamou de ‘formiga’, como se ela fosse pequena, inferior.


“Plana é essa tua bunda,” Antonella retruca.


Eu e a maioria da mesa ri. Luigi não. Estou há um ano namorando esse ridículo.


A música para de tocar e alguém no microfone anuncia que teremos uma performance ao vivo. As pessoas comemoram. Acendo um cigarro enquanto espero o cantor subir ao palco.


E então tenho uma crise de tosse ao descobrir que quem se apresentará é Ettore D’Angelo.


Quando me recupero da tosse, minha prima me ajudando a respirar, observo que ele está sem camisa, expondo seus músculos e tatuagens, usando uma fina corrente corporal brilhosa, e suas pálpebras estão preenchidas de glitter, brilho na parte debaixo dos olhos também. Eu evito apreciar seu corpo gostoso para Luigi não ver.


“E aí, pessoal?!” Ettore sorri confiantemente. A galera aplaude. “Vocês sabem que eu não faço parte de uma banda, mas trouxe aqui meus parceiros pra cantar uma música pra vocês. Nossa baterista Chaewon não pôde comparecer, mas o Dario aqui é do caralho também. Aproveitem.”


A música começa. Reconheço pela letra. Ettore está cantando uma versão rock de Gasoline da Halsey. Sua voz é meio rouca, sexy. Estou hipnotizada pelo modo como ele se porta no palco, as luzes batendo no glitter de seus olhos, os brincos balançando um pouco, o jeito como segura o microfone, unhas enfeitadas...


Você não pode acordar. Isso não é um sonho

Você é parte de uma máquina. Você não é um ser humano

Com seu rosto todo maquiado, vivendo em uma tela

Com a autoestima baixa, então você funciona à gasolina


Os olhos dele encontram os meus e eu sinto meu peito explodir. Minha mente fica em chamas. O fogo me aterroriza, pois estou entrando naquele túnel. Porque toda a letra me atinge. É como se Ettore soubesse que me queimaria.


A música acaba e a banda recebe aplausos e assovios.


“Valeu, pessoal. Quem estiver bebendo e quiser dirigir mais tarde, chamem um táxi. Boa noite.” E Ettore se retira do palco.


“Quem esse cara pensa que é?” meu namorado critica.


Um cara mais talentoso e mais consciente que você, penso.


“Essa versão é foda,” Antonella elogia. “Será que eles postarão no Spotify?”


“Eu não gostei como você ficou olhando pra ele,” Luigi sussurra no meu ouvido ameaçadoramente.


Como uma faísca que toca a gasolina e explode, me imagino quebrando um copo de vidro na cara dele.


Respiro fundo. Solto. Será que alguém neste bar tem maconha? Estou precisando para relaxar. Sinto que vou vomitar.


Deito minha cabeça no ombro de Antonella pra me sentir mais segura.

 

ETTORE

 

Cantar é só um hobby. Não tenho interesse de seguir essa carreira. Pra ser honesto, não penso muito no meu futuro. Tenho as empresas do meu pai para herdar.


Saio do bar para fumar um cigarro no beco. A música não alcança aqui fora e, por um instante, considero retornar para dentro, para o barulho atrapalhar meus pensamentos.


Avistei Magdala. Glamourosa como sempre, mas tão solitária no meio daqueles colegas de faculdade. Mesmo não tendo certeza se ela compareceria ao bar, escolhi a música pensando em nós dois. Quero saber se ela é insana e desequilibrada como eu. Se está sofrendo. Tudo o que estiver na letra. Quero saber nossas similaridades e quero conhecer quem é Magdala Delacorte de verdade. Seria um poder inigualável.


A porta se abre e uma pessoa assovia pra mim. Irritado, olho na sua direção. Então vejo Chaewon e minha boca se entreabre.


“Eu pude comparecer, só não quis tocar contigo,” ela implica. “E sou do caralho mesmo.”


Ela me ignorou desde a nossa briga, faltando até nossos ensaios da música.


“Não reconheci seu assovio.”


“Claro que não,” ela cruza os braços, “pois estava pensando na Magdala.”


Jogo o cigarro fora. “Tá falando comigo agora?”


“Você é uma drama queen.”


“Sério, Chae,” me viro na sua direção. “Senti saudade.”


“Infelizmente, não consigo passar muito tempo sem falar contigo,” ela se aproxima de mim. “Refleti umas coisas e cheguei a conclusão que você está apenas perdendo a cabeça.”


Eu rio alto. Deus, como amo ela.


“Posso te abraçar?” peço, com os braços já abertos.


“Ugh. Tu tá sem camisa e suado.”


“Só um pouco suado,” corrijo.


Ela fica parada me encarando, não convencida.


Subo e desço as sobrancelhas, seduzindo comicamente, “Não vai perder a oportunidade de abraçar um cara sexy, vai?”


Ela revira os olhos. “Não sei como tu consegue as coisas.” E se rende.


Abraço Chaewon apertado. Desde a morte da minha mãe, ela é minha única família.


Somos interrompidos quando a porta do beco se abre como se a pessoa tivesse chutado. E então vemos Magdala vomitar no chão, Antonella atrás dela segurando seu cabelo e acariciando suas costas.


“Putz,” Chaewon emite.


“Muito álcool,” Antonella dá a desculpa. Pela sua expressão, não acredito que tenha sido a bebida.


“Eu tenho um remédio de estômago no meu carro, se quiser,” minha amiga oferece.


“Ah não, não precisa. Obrigada, amore. Ela vai ficar bem.”


Não é por causa de bebida alcóolica que Magdala vomitou. É de nervosismo. O que a deixou tão nervosa assim? Espero que não tenha sido a música.


Pela visão periférica, vejo uma pessoa escondida na esquina do beco. Fico puto ao reconhecer que é um paparazzi.


Vou até ele antes que fuja. O cara não foge. Continua filmando, querendo lucrar em cima de mim também.


Sem falar nada, puxo a câmera da sua mão e arremesso na parede. Ela quebra com a força.


“Porra! Vai se foder, seu filho da puta!” o cara me xinga. “É meu trabalho!”


“Pois seja decente e se contente em filmá-la como a diva que é, não nesse estado. Você não tem empatia alguma não?”


O cara fica olhando pra sua câmera, balançando a cabeça. Por mais proteção, pego a câmera e a jogo no chão para quebrá-la mais.


“Você é maluco!”


“A mídia já me considera um, então nem adianta tentar conseguir algo disso.”


O cara pega a câmera destroçada e vai embora xingando a mim e a Magdala. Quando me viro, encontro até ela olhando pra mim, corpo ainda inclinado para frente e respirando com dificuldade.


Levanto as sobrancelhas. “Você com certeza não iria querer essas filmagens espalhadas por aí. De nada.”


Me retiro do beco, retornando ao bar. Escuto Chaewon se despedir e me acompanhar.

 

MAGDALA

 

Ettore ter me defendido foi uma surpresa bem-vinda. Apesar da hipocrisia dele, estou agradecida. Ele não precisava fazer aquilo, no entanto, pois o paparazzi não estava interessado em me fazer passar vergonha. O cara me filmou daquele jeito porque sabia que meus pais iriam pagar pra ele não divulgar as imagens. Os paparazzis entram em contato com a assessoria do meu pai e então recebem mais que a imprensa pagaria.


“Vai vomitar no meu carro não, né?” é o que Luigi fala abrindo a porta da sua Ferrari pra eu e Antonella entrarmos.


Minha prima olha irritada pra ele, “É sério isso, cara?!”


“Calma. Brincadeira.” A gente sabe que não é.


Fico apoiada em Antonella o caminho todo até em casa.


Luigi segura minha mão quando entramos na minha mansão. Eu só queria que ele fosse embora.


“Misericórdia, ela está pálida,” minha mãe aparece. “O que aconteceu?”


“Misturou uns drinks,” meu namorado mente.


Não, foi sua ameaça, seu verme. Me deu uma ansiedade do cacete. Eu só bebi cerveja preta.


“Ah, eu já podia adivinhar. Vou ligar para o dr. Jacinto.” Minha mãe se retira temporariamente.


A fraqueza me faz sentar no sofá da sala de estar. Meu namorado fica em pé e minha prima se senta ao meu lado ainda sem soltar minha mão.


“Luigi, pode ir pra casa. Vou ser bem cuidada agora.”


“Beleza. Me liga quando melhorar.” Ele se inclina pra me dar um beijo no topo da minha cabeça, “Aqui tá sem vômito.” Luigi nunca é engraçado. “Te amo.”


Meu namorado finalmente vai embora.


“Como pode um cara ser tão sem carisma?” Antonella comenta.


Consigo sorrir.


Minha mãe retorna. “Pronto. O médico está a caminho.”


Contanto que Luigi não chegue perto de mim, ficarei bem.


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