Capítulo 36
MAGDALA
Tenho que agir como se meu namorado não tivesse colocado uma arma de fogo na minha testa ontem, pois é aniversário de um político do partido do meu pai, portanto, sorrir na festa é essencial para a mídia-política elogiar os Delacorte, aumentando as chances do deputado Tiberius crescer popularmente entre o público. Meu humor não está nada sorridente e o batom esconde o corte no meu lábio causado pelo tapa do Luigi.
A festa está acontecendo no quintal da luxuosa mansão de arquitetura antiga, tem mesas redondas no gramado com materiais e utensílios caros, postes de luz, uma banda no palco tocando músicas calmas, diferente do meu estado psicológico.
Convidados me cumprimentam e elogiam meu colar de opala. Felizmente, meus sogros e Luigi não foram convidados, pois minhas bochechas doeriam de tanto forçar sorrisos. Salvatore e sua esposa Jasmine foram convidados, o que significa que Ettore pode comparecer.
“Magda, minha filha, este é o senador Lúcio,” minha mãe me apresenta.
O político branco, de barba feita e olhos azuis estende uma mão para mim.
“Prazer,” forço outro sorriso.
Minha mão pinica de nojo ao sentir o homem acariciar discretamente meu dorso. Sou apresentada a sua esposa e suas duas crianças.
Mais alguns cumprimentos e então finalmente posso me sentar na cadeira de nossa mesa. No entanto, para minha decepção, os D’Angelo vieram sem Ettore. Será uma festa entediante.
“Seu filho não vem?” meu pai pergunta ao sócio.
“Ele virá no próprio carro hoje.”
Sem dúvida o empresário mandou o filho vir no próprio carro para exibir sua Bugatti. Sei que Salvatore é elogiado por ser caridoso, porém é muito claro que ele gosta de exibir suas extravagâncias.
Não presto atenção nas conversas, nem mesmo nas músicas. Eu costumava gostar dessas festas. Não era um sacrifício sorrir e bater papo com magnatas, pois essa foi a vida que cresci. Eu adoro glamour, mas descobri que posso ser glamourosa sem precisar agradar essas pessoas, porque o glamour vem de mim, não delas.
Ettore chega horas mais tarde. A primeira coisa que noto no seu look é sua blusa transparente com glitter de gola alta que ele usa por baixo do blazer, com um decote V que cobre suas aréolas. É um look da Magnificent. A sombra esfumada nos seus olhos é de tons sofisticados para a noite.
O herdeiro cumprimenta meus pais e a mim, sentando-se no espaço ao meu lado. A festa não será mais entediante.
ETTORE
Magdala pede licença para se levantar. Deduzo que vá ao banheiro. Decido demorar um momento para segui-la, apesar de todos da mesa já saberem quais as nossas intenções.
Entrando na mansão, noto o senador Lúcio indo na mesma direção que a jovem empresária. Sei dos crimes deste homem, então desconfio dele.
Perco os dois de vista, mas não paro de procurar. Percorro um corredor que suponho ter um banheiro. Vejo uma porta semiaberta.
“...Me solta! Não!”
Encontro Magdala tentando afastar o homem que a prende forçadamente contra a pia.
Corro para arrancar o político dela. Lúcio tropeça em si mesmo e cai no chão. Aproveito para meter socos no seu rosto com os dois punhos fechados, meus anéis ferindo sua pele ainda mais. Queria estar com minha faca para cortá-lo em pedaços. Eu deformo seu rosto com uma raiva selvagem.
Alguém me empurra. Olho pra cima e vejo Magdala. Ela observa o estado do senador: rosto todo inchado e ensanguentado e com respiração falha, perto de morrer.
E então Magdala pisa na boca dele com a agulha do salto, perfurando sua garganta.
Ficamos paralisados enquanto assistimos o político morrer engasgado no próprio sangue.
“Tenho que lavar o salto,” ela começa a retirá-lo. “Tranquei a porta enquanto você socava ele.”
Magdala levantou o vestido quando pisou na garganta do homem, portanto, não tem sangue pra limpar no tecido. Ela pensou até neste detalhe.
“Isso não é estar no automático. Você está calculando,” comento enquanto Magdala lava partes do salto na pia, água e sangue descendo pelo ralo.
“Mais fácil do que refletir sobre o que acabou de acontecer,” ela responde duramente. “Anda. Lava suas mãos e unhas antes que alguém bata na porta.”
Não podemos perder tempo: obedeço.
Fico olhando sua expressão fria e concentrada através do espelho, porém noto suas mãos trêmulas e respiração irregular. Quero saber o que está se passando na mente dela. Está com medo? Arrependida? Sem remorso? Sentiu vingança? Justiça? Porque, quando matei pela primeira vez, fiquei com medo de ser descoberto, mas não me arrependi, não senti remorso e, embora haja um pouco de vingança e um tipo de justiça em assassinar políticos, eu senti mais que resolvi um problema que a sociedade se recusava a consertar.
“Fará barulho se eu secar o salto no secador de mãos. Pega essa toalha pra mim,” Magdala me conduz.
Obedeço novamente.
Um fio de cabelo meu pode ter caído na roupa desse homem morto. Pego outra toalhinha de rosto e varro no tecido dele. Limpo o piso em seguida. Pra finalizar, lavo a toalha e deixo-a secar no suporte. A torneira é automática, então não precisamos nos preocupar em limpar nossas digitais nela. Limparei a maçaneta antes de sairmos.
“Preciso de ar. Me leva pra uma praia,” Magdala pede. “Retocamos nossas maquiagens, deixamos o corpo dele trancado aqui, desligamos nossos celulares pra ninguém ligar ou rastrear, você joga a chave no mar pra sumir com as digitais e pronto. Ninguém vai questionar nossa falta. Vão achar que estamos transando em algum lugar.”
Como é possível saber o horário da morte de alguém, se sairmos agora, a polícia pode desconfiar. Contudo, não há provas o suficiente para nos incriminar, há outras pessoas indo embora antes do fim da festa e a polícia não forçará investigar filhos de magnatas, muito menos a filha do deputado Tiberius Delacorte.
Aceito, “Não tem câmeras no corredor do banheiro, então menos um problema.”
ETTORE
Expliquei no carro que precisamos queimar nossos sapatos, pois a polícia pode investigar o assassino através de pegadas, portanto, entramos descalços na areia, sapato e salto nas mãos.
Esta praia é isolada e escura. Arremesso a chave no mar e então pego meu isqueiro no bolso da calça. Soltamos nossos sapatos e eu me agacho para começar a queimar as solas deles. Magdala parece um pouco desorientada, assistindo o fogo.
“Eu só queria que a festa não fosse entediante e acabou em assassinato,” ela comenta em voz baixa, olhos sem foco.
Num tom suave, prossigo com o assunto, “Você matou ele.” Você se salvou.
Ela atira em mim com seus olhos. “Vai me culpar? Luigi apontou uma arma na minha cabeça ontem porque ele me culpa por tudo. Não quero me sentir suja por ter assassinado uma pessoa que tentou me estuprar, Ettore.”
Eu jamais a faria se sentir mal com isso e me imagino matando Luigi de forma grotesca.
“Você não é suja, Dala.” Me levanto, deixando o fogo eliminar nossas evidências. “Lúcio tentou te estuprar e cometia assédios com suas funcionárias e outras mulheres e até adolescentes de 16 e 17 anos,” eu conto pra ela não se sentir culpada nem inconscientemente. “Esses boatos sobre ele já são um pouco mencionados, só nada foi feito a respeito. Agora foi.”
“Então ele mereceu morrer.”
Vê-la feroz assim me dá forças, mas quando as ondas são o único som entre nós, sinto que tenho muito o que falar, porém que estou perdido sem saber como emitir meus pensamentos. Magdala matou uma pessoa. Não foi acidental. Foi porque ela sofreu uma violência. E estamos nos livrando de evidências juntos. É uma noite surreal. Não faço ideia de como seguir com a vida a partir daqui, pois minha missão é assassinar essa mulher, mas estou emaranhado num assassinato que ela cometeu e desejando que ela se cure psicologicamente e emocionalmente do trauma que sofreu nesta noite. A atmosfera é tensa, sombria.
“Você já fez isso antes,” Magdala descobre.
Sinto como se uma onda assustadora tivesse me derrubado, minha cabeça girando como se eu estivesse sendo afogado. Estou de pé, mas sem chão.
Finjo confusão, “Do que está falando?”
“Você sabia dessa informação do senador, não gosta do meu pai por ser político e entende como escapar de assassinato. Você faz parte de uma das gangues, não faz?”
Estou completamente fodido, todavia, eu não deveria estar surpreso dela saber das gangues. Seu pai pode ter mencionado ou ela pode ter escutado ele falando sobre. Nunca consegui ver Magdala como ingênua, pois ela nunca provou ser. O problema da minha missão não foi somente meus deslizes. Magdala Delacorte que é o problema: ela é calculista, fria quando precisa ser, manipuladora e inteligente sempre.
“Gosto de assistir documentários criminais,” é o que respondo, dando de ombros.
Isso irrita Magdala. Ela se vira mais na minha direção, “Não aja assim comigo.”
Não consigo mais negar. Não consigo mentir pra ela. “Sabe que pode ser morta só por saber disso, não sabe?”
“Talvez eu não valorize minha vida como você pensa.”
Eu anseio dizer que ela deveria valorizar, porque sua vida tem mais valor para mim do que a minha própria. Mas enterro isto no meu subconsciente.
“O que quer fazer?” escolho perguntar, porque agora Magdala Delacorte tem meu segredo crucial nas mãos.
“Tenho que dormir no seu apartamento,” ela responde olhando pro horizonte. “Meus pais chamarão a polícia para me procurar e você será o primeiro que eles vão desconfiar, porque não gostam de ti e porque você também ficou ausente na hora do crime. Se a polícia bater na sua porta, mais fácil da gente mentir que estávamos transando.”
Magdala acabou de descobrir que sou um assassino e decidiu dormir na minha casa. Entretanto, ela tem razão.
MAGDALA
A cobertura do Ettore tem vista panorâmica da cidade de Ivas e eu me sinto engolida pelo que aconteceu comigo. O silêncio do apartamento grita no meu ouvido que terei que refletir sobre. Preciso dissolver minha agonia num banho. Não será o suficiente, mas pelo menos me sentirei mais limpa, sem o cheiro do assediador na minha pele.
Um gato nos recebe e Ettore me apresenta a ele. Me acalmo um pouco.
Ettore me leva ao seu quarto. Quando me imaginei aqui, não era como uma foragida, muito menos como uma vítima de um dos amigos dos meus pais. Sinto que me engasgarei na minha tristeza.
Fico parada enquanto Ettore busca um conjunto de pijamas pra mim no closet. O quarto é grande, alto, com decoração escura, elegante e minimalista. As cortinas estão fechadas, impedindo que eu pense em me jogar da janela.
“Tem água micelar no banheiro, se quiser tirar a maquiagem,” Ettore me entrega o pijama preto de tecido aconchegante. “Vou tomar banho na outra suíte. Serei rápido.”
No banheiro, evito olhar o espelho, pois lembro das mãos estupradoras do senador tentando abaixar minha calcinha enquanto forçando meu corpo contra o balcão da pia. Sinto uma tontura. Respiro fundo.
No chuveiro, não seguro as lágrimas. Eu choro lembrando da minha vida sendo ameaçada com uma arma e choro pela tentativa de estupro que sofri. Mas não choro pelo que fiz. Não choro ao imaginar atirando no Luigi. Não choro pensando na garganta perfurada do senador Lúcio. Eu choro porque estou exausta.
Quando saio do banho, Ettore já me espera sentado na beira da cama, com cabelos molhados, pijama de seda e sem maquiagem. Agora que sei da sua verdade, eu deveria odiá-lo. Mas, destemida, dou um passo na sua direção.
“Quer comer alguma coisa?”
Ettore fala comigo suavemente e não me tocou em nenhum momento. Eu sei que é por respeito ao meu estado pelo que aconteceu comigo horas atrás. Não precisei avisar que não quero ser tocada; ele simplesmente entende.
“Obrigada... Mas eu provavelmente vomitaria,” respondo, lembrando do sangue escorrendo da boca do senador. Não chorei por ele, mas eu vomitaria de tensão, com medo de descobrirem meu crime. Eu seria mais condenada do que o político assediador.
“Quer algum remédio?”
“Podemos só... deitarmos um pouco?”
Ettore parece estar considerando se me atende ou não. Por fim, ele se arrasta até encostar as costas na cabeceira de sua cama king size.
Me sento ao seu lado, o ar-condicionado e os lençóis sendo os únicos ruídos do quarto. Os tecidos são tão macios, que meus olhos se fecham. Estou na cama de um serial killer, mas me sinto mais segura do que lá fora.
“Você é um serial killer, não é?” abro os olhos, cabeça virada para Ettore.
Ele fica em silêncio por uns segundos.
“Não sou psicopata, se é isso o que está tentando descobrir. Minha gangue faz teste pra saber se somos.”
“Nem cogitei isso,” ajusto o travesseiro na minha lombar. “Mas se você fosse, o que a gangue faria?”
“Aceitaria,” ele responde simplesmente. “É apenas um procedimento para saberem com quem estão lidando, para monitorarem o nível de violência, entre outras coisas. Ser psicopata ou sociopata não tem relação com ser violento, apenas a gangue precisa conhecer seus funcionários.”
Lembro do nível de violência de suas agressões contra pessoas que me machucaram. “Como você se denomina? Justiceiro?”
Ettore dá uma risadinha. “Eu não mato esses políticos por justiça, até porque justiça seria eles apodrecerem na cadeia. Eu mato porque sei que nunca haverá justiça; eles sempre ficariam livres ou recebendo bom tratamento na prisão.”
Eu deveria perguntar se ele tem plano de assassinar meu pai, mas, no momento, não me importo.
“Eu queria sentir remorso,” começo a me abrir, “pensar que o senador tinha família, mas não consigo, porque o homem tirava a saúde mental das pessoas. Não sei se sou vingativa ou justiceira. Eu apenas fiz o que eu queria.”
Tenho seu maior segredo nas minhas mãos e ele tem o meu. Sabemos da obscuridade um do outro.
A expressão de Ettore é neutra. Não sei o que está pensando, mas sei que não está me julgando.
Seus olhos descem para meus lábios, e ele franze a testa, “Que corte é esse? Lúcio te mordeu?”
“Ah,” eu toco no machucado com um dedo, me sentindo um pouco sem jeito. “Não, hm... Luigi me deu um tapa com a arma, aí causou um cortezinho no meu lábio e fez minha gengiva sangrar.”
“Vou matá-lo algum dia,” ele declara.
Ettore mataria por mim.
Escutamos um miado do outro lado da porta. O pai do gato pega um controle na cômoda e abre a pequena porta para Tori entrar. Também tenho isto no meu quarto. Sorrio quando o gato sobe na cama e se aconchega entre nós dois.
“Magdala tem que descansar, Tori,” Ettore acaricia sua cabecinha. “Você vem comigo pro outro quarto.”
“Não quero dormir sozinha,” aviso. Imagens da noite de hoje podem passar pela minha mente enquanto tento dormir. Na companhia do Ettore, lembro que o pior já passou. Ele estava lá. Ele não me deixou lidar com os problemas sozinha.
Ettore fica comigo mais uma vez.
