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Capítulos de MAGMA

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Capítulo 37

MAGDALA

 

É madrugada. Ettore está virado de costas pra mim, mas sei que ele está acordado porque seu pé balança em ansiedade de vez em quando. Ele para sempre ao perceber que pode me acordar.


“Também não consigo dormir,” ligo o abajur.


Ele se vira pra mim. Nossos rostos não estão próximos, mas posso contar seus cílios naturalmente longos.


“Não tomei meu remédio de insônia,” ele conta.


Não sabia que ele tomava. Preciso tomar também.


“Por quê?” pergunto suavemente.


“Talvez me fizesse dormir antes de você, te deixando sozinha.”


Sinto vontade de passar meus dedos pelos fios de seu cabelo. Ele fecharia os olhos? Ele se acalmaria? Conseguiria dormir bem?


Vejo seus olhos passearem pelos meus cachos. Tenho vontade de permiti-lo me tocar, nem que seja só para colocar uma mecha atrás da minha orelha. Mas, por alguma razão, é mais íntimo estarmos na mesma cama sem nos tocarmos. Escuto sua respiração, ele escuta a minha, e existe tranquilidade nisto. O espaço entre nós dois parece mais um vale do que uma distância.


O som do interfone tira nossa paz. Me levanto da cama abruptamente. Tori acorda.


“Tenho que atender,” aviso, nervosa.


“Falo primeiro pra ter certeza do que se trata, ok?” Ettore se senta, mais controlado.


Como imaginei, a polícia está me procurando. Ettore libera o elevador. Passo meu batom para esconder o corte no lábio, pois podem suspeitar que ele me agrediu, que sou refém dele ou sei lá.


Descemos do quarto para o hall e ficamos esperando em pé, eu na frente e Ettore atrás de mim com as mãos nos bolsos. Não estou mais nervosa.


“Você já sabe o que fazer, Magnólia,” Ettore me elogia.


O elevador se abre e dois policiais entram no apartamento.


“Srta. Delacorte?”


“Sim?”


“A senhorita está bem?”


“Bem, eu estava melhor quando na cama,” cruzo os braços.


Os policiais ficam um pouco constrangidos com o duplo sentido.


“Estão me procurando? Não é novidade eu sumir de festas pra fazer sexo.”


O policial pigarreia. “Senhorita, é que um assassinato aconteceu no aniversário.”


“Quê?! Como assim?! Meus pais estão bem?” atuo.


“Eles estão bem, senhorita. Não se feriram, nem nada. Eles apenas querem saber se você está segura. Seu celular se encontra desligado.”


“Sim sim, estou bem. Tem algo que eu possa fazer pra ajudar?”


“Não será necessário. Apenas precisamos que a senhorita venha conosco pra ser levada a sua casa em segurança.”


“Ah, não vou com vocês, policiais. Como eu disse, estou bem. Podem avisar a meus pais que ficarei com Ettore, que estou em segurança. Converso com eles mais tarde.”


“Senhorita, é que eles mandaram você vir conosco.”


“Preciso mesmo lembrar a vocês que sou adulta? Conversarei com meus pais mais tarde,” repito. “Tenham uma boa noite, policiais.”


Ettore coloca sua digital ao invés da senha para o elevador abrir. Os dois policiais se despedem, finalmente indo embora. Diferente dos meus pais, odeio policiais.


“Não nos tornamos suspeitos de assassinato,” eu brinco, me encostando na parede lisa.


“Ainda é cedo pra comemorar,” Ettore responde, se segurando para não sorrir junto comigo.


“Quero ver as notícias,” peço.


Entramos na sala e ele liga a televisão um pouco menor que a do seu quarto. O barulho do jornal se espalha pelo ambiente como num cinema e sinto como se meu cérebro estivesse sacudindo. É uma experiência anormal assistir jornalistas comentando sobre o assassinato que cometi.


“Você pisou no senador como se ele fosse uma barata,” Ettore comenta, soando orgulhoso.


“Baratas são importantes pra humanidade. Esse homem não era.” Não vou me comparar aos meus pais, que assassinaram uma pessoa por ganância e poder. Isto não faz de mim uma heroína, mas também não me torna uma vilã.


Me sento no sofá e Ettore me acompanha, ficando só um pouco distante de mim. Pego o controle dele para deixar a televisão no mudo.


“Como Avas nunca desconfiou de serial killers?” questiono, lembrando de quando eu questionava se meu pai seria o próximo alvo. “Vocês deixam uma lista dos crimes próxima ao corpo do político, certo? Se isto é um padrão, como ninguém questionou ter um assassino em série à solta?”


“Não é padrão em todas as gangues,” Ettore estica o braço no encosto do sofá. “Avas vê como bandidos ou magnatas matando uns aos outros ou máfia, porque é assim que os assassinatos são noticiados, geralmente. A mídia e a polícia evitam causar pânico ou revolta na população, porque isso prejudicaria mais os políticos, já que eles são os alvos principais e não querem ser descobertos como sujos e corruptos, obviamente. Noticiar como se fosse um conflito interno entre gente rica e poderosa é vantajoso pra fazer a população sentir como se fosse fofoca, não crime para temer.”


“Caralho, a maioria da população de Avas é sem noção.”


Ettore ri e balança a cabeça, concordando.


Desligo a TV. “Você deveria tomar seu remédio de insônia pra dormir melhor. Não precisa esperar por mim.”


Seu pé começa a balançar em ansiedade. “Se preocupa assim comigo, Magnólia?”


“É o mínimo que posso fazer por ontem, Anjinho.”

 

ETTORE

 

Eu deveria estar planejando como assassiná-la e tirar seu corpo do meu apartamento sem causar suspeita, mas passei minutos observando-a dormir na minha cama, sem conseguir distinguir se era sonho ou pesadelo, e agora estou preparando almoço para ela.


Chaewon e Dario me enviaram mensagens, mas não posso respondê-los ainda. A conversa tem que ser pessoalmente para minhas mensagens não se tornarem evidências do crime. Obviamente meus amigos não mencionaram o assassinato, apenas estão querendo conversar sobre, em algum momento quando nos encontrarmos. Todavia, estou ocupado. Malditas cebolas fazendo meus olhos arderem. Estou realmente me submetendo a isto por Magdala Delacorte.


“Estou presenciando um serial killer chorar enquanto corta cebolas,” ela aparece na cozinha, e se senta no banco da ilha, braços apoiados no balcão de mármore.


É desconcertante que Magdala sabe esse meu segredo, ao mesmo tempo que é eletrizante a sensação dela ser minha parceira de crime.


“Estou preparando um risoto que Dario me ensinou,” respondo sem virar o rosto.


“Ah, então suas mãos têm mais talentos do que pensei.”


Minhas bochechas que ardem agora.


“Está corando, Anjinho?”


Ela me chama de Anjinho e eu me sinto nas nuvens. Jesus Cristo, Ettore, me repreendo.


“Você já acorda irritante,” tento disfarçar, falhando miseravelmente.


Magdala se aproxima de mim, olhando os ingredientes. Em seguida, ela toca no meu coque baixo. Me incomodo dela estar na minha cozinha, pois parece um momento doméstico. Já tivemos momentos íntimos, entretanto, não era para continuar acontecendo, muito menos no meu apartamento.


“Por que não encomendou comida pronta? Mais fácil.”


Foi minha primeira ideia, mas quis preparar o almoço para nós dois. Merda, isso é doméstico e íntimo.


“Porque estou a fim de comer esse risoto em específico.”


Ela sabe que menti como um idiota.


“Onde ficam os outros brinquedos do Tori? Quero brincar com ele enquanto o almoço não fica pronto.”


Explico onde fica o quarto do meu gato. Em poucos minutos, Magdala entra na sala segurando uma luz laser e Tori já seguindo. Ela está com um sorriso radiante, brincando com meu gato como se não tivesse preocupações para lidar. Eu nunca a vi tão tranquila e ela está se sentindo assim na minha casa. Sinto vontade de dar uma pausa na receita para ficar admirando esse lado de Magdala.


O que eu deveria fazer é incriminá-la. O assassinato que ela cometeu é a chance perfeita para eu acabar com a reputação do seu pai. Mas mexeria com um trauma dela e não quero machucá-la assim.

 

ETTORE

 

Magdala adormeceu no sofá enquanto eu terminava de preparar o risoto. Seus cachos estão espalhados na almofada. Minha mão pinica em desejo para acordá-la acariciando seu rosto. Ela parece inocente, como se não tivesse um lado violento. É o que me faz querer tocá-la: seu poder.


Não sei se sou vingativa ou justiceira. Eu apenas fiz o que eu queria, ela revelou na minha cama.


Acredito que Magdala esteja libertando um lado obscuro dela. É tentador entrar na sua mente. Ela é uma pessoa tão complexa. Por anos, a rotulei de filhinha de papai para evitar me interessar por seus mistérios. Eu sempre enxerguei algo a mais nela, mas era perigoso descobrir. É perigoso conhecê-la. Contudo, ela alimenta minha obsessão todos os dias.


“Dagma...” uso meu novo apelido pra ela. Soa nome de anti-heroína. É variante de Dagmar, que significa ‘dia glorioso’ ou ‘aquela que traz luz’.


“Magnólia e Dagma...” ela acorda, olhos semicerrados, sorriso sonolento. “Ganhei superpoderes? Já tenho: é dinheiro.”


Eu rio. Seu humor é sombrio como o meu.


“Vamos. O almoço está na mesa. Quero dizer, na ilha da cozinha.” Humor nada sombrio. Reviro os olhos pra mim mesmo mentalmente.


“Você é fofo,” Magdala me elogia, me seguindo.


“Você parece bêbada,” não olho na direção dela.


“Talvez eu só esteja contente.”


Me viro na sua direção, fazendo-a parar. Seu sorriso desmancha ao ver minha expressão.


“Eu acho que você está brincando de ‘faz de conta’,” digo friamente. “Faz de conta que você não terá que lidar com seus pais mais tarde. Faz de conta que seu namorado abusivo não é mais um problema. Faz de conta que você tem a opção de não esconder sua verdade para as pessoas que você ama.” Dou um passo ameaçador na sua direção, e seguro sua mandíbula com uma mão, “Faz de conta que você está segura comigo.” Magdala não fez a pergunta certa até agora: meu plano é matar seu pai? Ela quer fazer de conta que este detalhe não importa.


Ela tira minha mão dela com força. “Não sou segura nem comigo mesma. Por que eu teria medo de você?”


Ontem, ela me disse que talvez não valorize sua própria vida, e agora me disse que não é segura consigo mesma. A certeza de que Magdala é suicida rasga meu peito.


“O risoto vai esfriar,” ela passa por mim sem medo de eu apunhalá-la pelas costas.

 

MAGDALA

 

Elogiei a comida, mas não quis conversar enquanto almoçávamos. Também quero silêncio a caminho de casa. A melhor parte de andar de carro é ficar observando a cidade pela janela.


“Posso colocar uma música?” Ettore pede.


“É seu carro,” finjo dar de ombros.


“Escolha uma música na playlist,” ele oferece, como se fosse um jeito dele de tentar fazer me sentir melhor.


Procurando, descubro que seu gosto musical é semelhante ao meu. Decido colocar em ordem aleatória. IDEA do Taemin começa a tocar.


“Um dos meus ídolos,” Ettore comenta, sem tirar os olhos da rua. “Além de eu admirar seu talento, me sinto inspirado com as roupas e maquiagem dele.”


“Reis,” elogio ambos.


“Você me acha um rei? Muitos elogios num dia só, Magnólia.”


Fico calada para ele não me chamar de sua rainha. Ettore me quer em silêncio somente quando é minha vontade. Ele sempre anseia saber tudo o que eu penso. Volto a olhar pra janela com meus lábios se curvando num pequeno sorriso.


Fomos rei e rainha no assassinato do senador Lúcio. Enquanto presto atenção na música, eu lembro de um trecho da letra:


A percepção está além dos limites

Sua sombra que você finalmente encontrou


Viro meu rosto para Ettore, e digo seriamente, “Eu guardo seu segredo e você guarda o meu.”

 

MAGDALA

 

Meus pais não sabiam qual horário eu voltaria pra casa, mas logo foram informados que cheguei, portanto já me esperam no escritório. Respiro fundo antes de abrir a porta.


Ambos estão sentados em poltronas separadas, monitorando cada passo que dou. É como se eu tivesse sido chamada para depor.


“Sente-se, Magdala,” minha mãe gesticula para uma poltrona de frente para eles.


Quando me sento, debocho, “O que é isso? Um interrogatório?”


Isso visivelmente irrita meus pais.


Meu pai se recompõe, e comenta, “Ficamos preocupados que Ettore tenha lhe feito de refém.”

Meus pais realmente pensam o pior do Ettore.


“Por que ele faria isso?” atuo como se minha cabeça não estivesse doendo.


Minha mãe se aborrece, “Ora, Magdala, ele já provou múltiplas vezes ser um rapaz perigoso. Quantas vezes mais ele terá que ser agressivo para você abrir os olhos?”


Ettore me salvou de uma tentativa de estupro, mãe. “Bem, fui eu que pedi para que ele me levasse ao apartamento dele.”


Meu pai espreme seus olhos com os dedos.


“Estamos decepcionados com você, Magda,” minha mãe fala. “Sua promiscuidade está passando dos limites.”


Como é que é? Ela realmente disse isso.


“Você poderia ter sido investigada por assassinato!” meu pai aumenta a voz.


E acabaria com sua reputação. Eu sei que ele está mais preocupado com isto do que sua filha ter se tornado uma suposta assassina.


“Não fomos os únicos a sair naquele período de tempo, pai. A polícia terá que investigar os outros convidados também.”


“Sim, isso não é mais um problema. A polícia já aceitou que você estava... ocupada. Nos deixarão em paz.”


Sei que existe camaradagem e até parceria entre políticos e a polícia.


“Todavia, você está proibida de ir ao apartamento de Ettore D’Angelo,” meu pai declara.


Dou um pequeno riso, incrédula. “Vocês não podem me proibir isso.”


“Podemos, minha filha,” minha mãe debocha.


Quebrarei essa nova regra algum dia, mas estou com medo no momento, porque não sei do que meus pais são capazes.


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