CAPÍTULO 8
MAGDALA
Tomo um mocha gelado com Antonella na cafeteria de decoração escandinava da universidade. Minha prima está vestindo um conjunto bege que combina lindamente com sua pele escura, seus cabelos são mais cacheados que os meus e seus olhos são escuros como os meus. Conversamos sobre o livro de suspense que ela está lendo. Como não planejo lê-lo, aceito saber os spoilers.
Minha atenção desvia apenas quando avisto Ettore entrar no ambiente. Ele está usando uma saia xadrez que deixa suas coxonas expostas, incluindo uma cinta-liga de couro numa coxa. Limpo a garganta, engolindo minha atração. O cara gosta de me intimidar e eu sinto atração por ele. Sou fodida da cabeça.
Ettore está acompanhado de sua melhor amiga: Kang Chaewon. Ela tem cabelos compridos pintados de loiro claro e as coisas que sei sobre ela são: 20 anos, estuda Biotecnologia, tem voz grossa, seus pais são sul-coreanos, bilionários que trabalham na indústria farmacêutica, estilosa, gente boa e anda com pessoas legais. Se é melhor amiga do Ettore, significa que confia nele, portanto, ele pode ser confiável às vezes. A não ser que ele a intimide também. Contudo, eu também sei que eles são amigos de infância. O amor deles é genuíno, concluo. Ainda assim, confio mais nela do que nele.
Passando pela minha mesa, Ettore pega meu mocha e toma um gole pelo canudo. Fico boquiaberta com sua atitude sem vergonha. Sei que há olhares curiosos em nós dois.
“É, vou comprar este hoje.” E me dá uma piscadela antes de prosseguir em direção ao balcão.
A sensação não é muito boa. Passei o final de semana me atarefando com a Magnificent, minha marca de roupa, para não pensar sobre nossa discussão. Ettore ter me provocado no último evento foi como abrir um túnel sombrio que eu não quero atravessar na minha mente. O almoço com meus pais fez eu dar um passo para dentro do túnel. Mas a verdade é que o túnel já estava se abrindo antes do Ettore me empurrar para a entrada.
“Que porra ele quer?” Antonella está desacreditada. “Eu gosto do cara, mas posso estar errada.”
Não contei a ela que foi ele quem vazou meu vídeo na boate. Minha prima só sabe que não foi Ettore que contou a Luigi sobre minha recente traição. Não quero que ela se envolva muito na nossa dinâmica estranha. É mais saudável pra ela não se envolver nessa nossa merda.
ETTORE
“Tu não presta,” Chaewon sorri pra mim quando chegamos no balcão da cafeteria.
Faço cara de ofendido.
“Mais provável ela cuspir na minha bebida do que se afastar de mim,” estou orgulhoso. Uma parte de mim gostaria de ver Magdala fazer isto comigo.
“Eca. Porra, vou tomar meu café já já. Não fala de cuspe!”
Sorrio, rindo internamente.
Somos atendidos. Chaewon pede um frappuccino de chocolate e eu, como eu disse a Magdala, peço um igual ao dela.
“É pra levar,” minha amiga avisa a funcionária.
Com nossas bebidas na mão, vamos para o carro da Chaewon. É um McLaren. Presente recente de seus pais. Ouvimos música enquanto cantamos juntos pelo caminho.
Diferente da minha cobertura com cores mais escuras, o loft da minha amiga é com cores claras. Tiramos nossas botas no hall de entrada. Win, seu gato preto e branco, nos recebe. Me agacho para acariciá-lo. Winner, a gata cinza, não é muito de se socializar.
“Antes que um de nós esqueça...” começo, me levantando.
Chaewon logo sabe do que estou me referindo. Revira os olhos. “Tá. Era pra gente tomar nossos cafés primeiro. Vem.”
Deixamos as bebidas na ilha da cozinha e subimos as escadas para o seu quarto. Meus olhos vão direto para a caneca que tem as bandeiras bissexual e gênero fluido dentro. Toco na mesma que a minha: bi.
Minha melhor amiga pega a receita do meu remédio na sua gaveta. Não dormi bem no final de semana, pois meu remédio de insônia acabou. Chaewon conhece uma psiquiatra que me prescreve uma receita. É mais fácil assim do que marcar consulta. Meu pai não iria gostar, já que a mídia comentaria que o filho dele precisa de ajuda médica para dormir.
“Toma.”
Planto um forte beijo na sua bochecha em agradecimento.
“Ai, desgraçado,” ela sorri.
Descemos para uma mesinha da varanda, a céu aberto em vez de tomarmos os cafés na ilha. Win se junta a nós.
“Notei Magdala olhando pra suas coxas.”
Sei aonde ela quer chegar com isso. Assim como Vit, Chaewon não aprova minha ideia de matar Magdala.
“Certa ela. Sou gostoso mesmo.”
“Qual o próximo político?” Chaewon toma um gole do frappuccino para esconder a tensão.
Pela segurança dela e pela minha proteção, não posso comentar sobre meus serviços ou qualquer informação da gangue. Só posso contar um detalhe e outro. Nunca nomes, porém os nomes dos políticos são revelados em noticiários, obviamente.
“Um que rouba dinheiro da merenda das crianças de escolas públicas.”
“Que porco,” ela xinga o político. “Algumas dessas crianças só conseguem comer direito quando estão na escola.”
Não foi complicado contar a Chaewon sobre meu trabalho. Ela é minha amiga de infância, portanto, sabe da história da minha mãe e compreende minhas motivações. Entretanto, ela só “aceitou” que sou um serial killer com uma única condição: que eu nunca investigasse seus pais. Eles têm um relacionamento saudável e não quer que eu estrague isto. De qualquer forma, seus pais não me interessam, porque não fazem questão de se socializar com os magnatas de Avas ou de ter algum destaque na mídia-política do país.
“Farei questão dele comer areia.” Em anônimo, doei alimentos para as escolas.
“E Magdala? Sofrerá também?” Chaewon está ficando com raiva de mim novamente.
“Só quero tomar meu mocha em paz, Chae.”
Ela funga, retornando a se encostar na cadeira. “Você realmente quer insistir nisso,” murmura indignada. “Coloca uma porra de uma bomba no carro do pai dela e acaba logo com isso.”
Eu mal comecei. “Implantar uma bomba em carros é arriscado demais, pois pode matar inocentes”
“E a Magdala é o quê, Ettore?!”
“Uma filhinha de papai assassino.”
Nos encaramos, eu friamente e ela com fúria. Nossa relação continua a mesma, mas quando o assunto é Magdala Delacorte, parecemos irmãos decepcionados um com o outro.
Chaewon se levanta, frappuccino cheio na mão. Nossa discussão a deixou cansada. “Pro nosso bem, estou tentando aceitar. Só que você está sendo sádico com uma inocente.”
Ela riu da minha atitude na cafeteria poucas horas atrás e agora está reclamando da provocação inofensiva.
“Magdala deve ser uma masoquista, então,” eu respondo, pegando meu mocha. “Porque ela está gostando.”
Minha melhor amiga me deixa sozinho na varanda.
