CAPÍTULO 17
MAGDALA
Fui sufocada contra a minha vontade no pau desse cara ontem à tarde, agora tenho que aguentar olhar pra cara dele por mais algumas horas porque os times adversários inventaram de fazer uma festinha em um boliche hoje à noite.
Vim de short saia para evitar algum constrangimento quando eu for arremessar a bola. Antonella também. Prendi meu cabelo num rabo de cavalo e minha prima prendeu o seu num afro puff. Calçamos tênis por conforto e, como afronte a Sérgio, escolhi uma gargantilha escrito ‘bitch’ (vadia). Eu viria com uma escrita ‘slut’ (puta), porém a que estou usando é mais bonita.
Quando avisto Sérgio se direcionando ao banheiro, minto pra Luigi dizendo que farei o mesmo, e então sigo seu rival.
“Ei!” chamo ele antes dele abrir a porta.
O jogador para no corredor. Um sorriso repulsivo aparece nos seus lábios finos ao ver que sou eu. “Veio finalizar o boquete de ontem, princesa?”
“Criativo o que escreveu no meu carro.”
Ele bufa uma risada, testa franzida. “Do que tu tá falando?”
“Para com essa merda. É tão óbvio que foi você.”
“Eu realmente não sei que merda tu tá se referindo.”
“Você escreveu no meu carro ontem à tarde.”
“Olha, princesa,” Sérgio está perdendo a paciência, “quando tu saiu, eu bati uma punheta no chuveiro, depois passei na cafeteria pra comprar uma vitamina e então fui pro treino. Só entrei no estacionamento quando estava chovendo.”
Por que parece que ele não está mentindo? Se for verdade, quem foi o babaca que fez aquilo? Porra. Não acho que tenha câmera onde estacionei meu carro e não vou pedir filmagens de uma merda dessa. Agora só quero deixar pra lá.
Ameaço, “Se você repetir isso, não será apenas uma janela manchada que seu carro terá.”
Retorno ao boliche.
“E aí?” Antonella me pergunta sobre quando me sento ao seu lado no sofá.
“Não foi ele,” respondo desanimada.
“Quê? Isso não faz sentido algum.”
“Deixa pra lá, Tônia. Talvez tenha sido só uma pessoa que teve um dia ruim e quis descontar em alguém.” Não que eu acredite 100% que não tenha sido o Sérgio. Ele pode ter mandado alguém fazer.
“Ok... Ah, olha só: o Dario tá aqui. Ettore e Chaewon também.”
Nem fico surpresa. Várias pessoas da faculdade estão aqui, não somente os que assistem os campeonatos.
Procuro pelo trio bissexual e encontro Ettore no bar. Quero ir até lá. Não falo com ele há dias.
Avisto Sérgio retornando do banheiro e acho o momento perfeito pra eu escapar. Mas meu namorado aparece na minha frente no mesmo minuto.
“Você voltou,” Luigi segura meu rosto e beija minha bochecha. “Eu que vou agora. Bexiga cheia de cerveja.”
Ufa.
“Quer mais alguma bebida? Tô indo no bar.”
“Outra cerveja.”
Tenho que aproveitar essa chance.
MAGDALA
“Nunca vi vocês numa partida de futebol,” puxo assunto com Ettore, esperando o barman preparar meu pedido.
Na última vez que nos falamos, Ettore quis ser meu melhor amigo. Eu poderia ter permitido ele ser um amigo que me beija naquela noite. Era visível que ele estava desejando. Mas não tive vontade de ceder ao seu charme. Foi tão mais gratificante deixá-lo sem chão.
“Viemos pelo boliche,” ele responde pegando seu drink Lagoa Azul. “Você atira bem,” me elogia de repente, virando-se na minha direção, e apoia o cotovelo no balcão.
Sua sombra de olho combina com as luzes neon do ambiente e seu delineado é gráfico. Não é fácil resistir ao seu charme, admito.
“Obrigada. Pratico desde criança. Suponho que seu pai também te ensinou?”
“Hum,” ele só afirma com a cabeça. “Nossos pais se parecem em alguns aspectos,” seu tom é azedo.
Me pergunto se Ettore já pensou em atirar no pai dele. Se ele já teve esse pensamento intrusivo ou se não foi intrusivo.
O barman entrega meu drink Lagoa Vermelha e a cerveja do meu namorado.
“Você vai assistir o campeonato?”
“Por quê? Quer que eu vá?” ele provoca.
Porque, bizarramente, senti saudade. “Só tô puxando assunto.”
“E por que quer puxar assunto comigo, Magnólia? Seus amigos estão por aí.”
Eu rio. “Ainda ressentido que não te considerei um deles?”
Ettore fica me encarando com uma expressão de que venci o bate-boca, entretido.
“Talvez eu vá pra festa pós-jogo,” ele responde enfim. E se retira do bar.
MAGDALA
Sérgio está sendo um dos vencedores no boliche. Sei mirar uma arma, mas não uma bola. Uau.
Chaewon também é boa no boliche. Parabenizo-a mentalmente sempre quando ela tem uma pontuação alta. Antonella e Dario passam mais tempo conversando no sofá, comendo e bebendo juntos. Ettore derruba todos os pinos a cada partida. Luigi é ok.
É minha vez novamente. Vou pra frente da pista com a bola nos meus três dedos.
“Silêncio, que a ‘bitch’ vai arremessar agora,” Sérgio me deixa desconfortável. Ele já estava tentando me humilhar toda vez que eu perdia.
Meu namorado se aborrece. “Ei, cara. A gente veio na paz, mas se tu continuar insultando minha namorada, arrebento tua cara.”
A turma faz som de apoiar a rivalidade.
“Vai, bebêzinha,” Luigi me incentiva.
Respiro fundo. Odeio que todos agora estão na expectativa dos meus pontos, seja eu ganhando ou perdendo.
Eu perco. Acerto somente dois pinos.
“Ahhh. Talvez ela saiba mexer em outro tipo de bola,” Sérgio provoca.
Ettore o golpeia com uma bola de boliche na cara. Alguém grita. Sérgio cai inconsciente no chão, nariz e boca sangrando. Todos ficam sem palavras, só música ressoando pelo ambiente. A violência foi tão repentina, que eu fico imóvel. Consigo sentir meus batimentos cardíacos.
“Que cara irritante,” Ettore reclama por cima do silêncio. “Vamos continuar a diversão.”
Sem saberem como reagir, as pessoas retornam aos seus trabalhos e lazeres.
Escuto meu namorado me chamar como se estivesse à distância, mas fico encarando Sérgio quase morto no piso que reflete as luzes, sangue escorrendo. Meu coração não está mais acelerado. É como se eu estivesse sentindo nada.
ETTORE
“Você está perdendo a porcaria da sua cabeça!” Chaewon grita comigo dentro do seu carro estacionado.
“Você mesma já disse que estou,” revido tranquilamente. “Tudo já se resolveu, Chae.”
O gerente do boliche resolveu a situação do Sérgio para não ter problema com meu pai, portanto, me safei da polícia aparecer trazendo a mídia junto. O jogador está sendo tratado pelos primeiros socorros do local. Seu nariz quebrou e ele perdeu uns dentes. Vai ficar feio no campeonato. Eu rio.
“Você ainda ri! Puta merda, você está me tirando do sério,” ela abaixa a cabeça no volante, apertando as mãos em punhos. “Tudo isso por causa da Magdala.”
Gostaria que minha amiga estivesse errada. Sérgio passou o boliche todo humilhando Magdala e o slut-shaming atingiu um nervo meu.
“Não dê tanto crédito a ela. O cara realmente é irritante.”
Chaewon olha nos meus olhos, “Ele poderia ter morrido.”
“Eu sabia que aquele golpe não mataria, Chae. Sou profissional. Você parece que esquece.”
“Acidentes acontecem, Ettore. Nunca achei que você fosse se tornar inconsequente.”
Reviro os olhos. “Não é a primeira vez que causo polêmica. Pra quê esse drama? Tu já presenciou minhas merdas e sempre me defendeu.”
“É diferente agora. Você quer matar essa garota, mas fica atacando quem ataca ela.”
Provoco, “Talvez eu esteja sendo um pouco possessivo. Ela é meu brinquedo. Não vou deixar qualquer um brincar.”
“Quero te chutar com essa minha bota plataforma.”
“Tenho inveja que tu sabe taekwondo.”
“Não vou te levar pra casa. Chame o Marco pra vir te buscar. Sai do meu carro.”
“Chaaaae,” faço biquinho.
Ela está se controlando pra não sorrir.
“Porra, te odeio. Como tu faz uma merda dessa? E como eu não consigo te achar maluco?!”
“Porque o cara mereceu e tu sabe que ele mereceu e queria dar um tapa nele bem antes de eu deixá-lo inconsciente no chão.”
“Pior que você tem razão.”
Eu rio alto. Puxo minha melhor amiga pra um abraço, seu rosto no meu pescoço.
“Aliás, você é maluco sim,” sua voz sai abafada pelo abraço.
Eu rio mais.
Beijo o topo de sua cabeça. “Você também é, por gostar de mim.”
“Só um pouco.”
