Capítulo 29
MAGDALA
Passando por um corredor da universidade com Antonella e Asami após nossas aulas, recebo uma mensagem do Luigi me contando que tem um compromisso. Estranho ele não me revelar qual (não que sua vida tenha algo de interessante pra revelar), mas foda-se também; não tenho interesse em saber e não preciso de sua carona. Volto a prestar atenção em Asami, que está falando sobre seu curso de Geologia.
A gente se despede na entrada da faculdade, onde avisto Ettore chupando um pirulito com glitter comestível. Ele me vê o observando e me dá uma piscadela. Você pode usar cada parte do meu corpo, penso na sua frase de ontem.
“Quero detalhes,” Antonella exige comicamente enquanto andamos em direção ao estacionamento.
Eu rio. “Te conto no carro.”
“Vou causar um acidente,” ela brinca.
“Para!” rio mais, dando um empurrãozinho nela. “Não foi nada demais.”
Não contarei as partes mais intensas, como nossas declarações de desejo com angústia. Não quero expor algo tão pessoal e não tem como explicar a alguém sobre meu relacionamento estranho com Ettore. Eu prefiro assim, mas o real motivo é: o que pensariam de eu estar me relacionando com um cara que disse que quer me torturar e ver minha vida pegando fogo? Não acreditariam que ele faz tudo menos me machucar. Eu que destruo ele.
MAGDALA
“Sr. Delacorte está esperando a senhorita no escritório dele,” nossa governanta me avisa quando chego da faculdade.
A surpresa é grande ao encontrar meu namorado no escritório do meu pai. O mau pressentimento é maior.
“Obrigado, Luigi. Agora preciso conversar com minha filha.”
“À disposição, senhor.” E Luigi se levanta da cadeira.
Ao passar por mim, ele me dá um sorrisinho que me causa calafrios.
“Exijo que me conte o que está acontecendo entre você e Ettore D’Angelo,” meu pai inicia quando meu namorado vai embora.
Então foi por isso que Luigi não me revelou seu compromisso: saiu da universidade antes de mim para vir no meu pai me dedurar.
“Você sabe que poderia ter sido flagrada.”
“Também não é assim—”
“Um escândalo sexual, Magdala!” ele aumenta a voz, dando um tapa na mesa. “De sexo em público, traição e você com um delinquente!”
Imagino pegando meu isqueiro e queimando o escritório até que tudo vire cinzas.
“Pai, não tem nada acontecendo entre mim e Ettore. O que quer que Luigi tenha lhe dito, ele exagerou, pois é ciumento.”
“Não estou interessado no seu drama de namoro,” ele responde insensivelmente. “Esqueceu que a mídia-política não é fã do Ettore? O que falariam de nós se tivessem provas de que você foi fazer sexo com ele em um local público?!”
Quero gritar. Quero quebrar esse escritório inteiro. Quero gritar que Luigi me estuprou, que me forçou a chupar seu pau e meteu um dedo dentro da minha buceta sem meu consentimento, que me agride fisicamente e psicologicamente. Mas esse homem à minha frente, que tristemente é meu pai, chamaria os abusos que sofro de ‘drama de namoro’.
“Você está tão obcecado pelo poder, que está se tornando insensível em níveis que nunca achei que meu pai seria.”
Com minha fala, meu pai tenta se recompor. Um bom ator, estou notando.
“Apenas estou cansado, minha filha. Passei esses anos subindo de cargo para algo tão fútil me fazer cair?”
Oh pobrezinho do deputado empresário, reviro os olhos mentalmente.
“Você nunca caiu,” rebato. “Vi as notícias essa manhã. A mídia-política está elogiando a parceria entre você e Salvatore, comentando como vocês dois são empresários respeitados. Até me elogiaram por causa de Magnificent. Nem mencionaram Ettore.”
“Está certa,” meu pai afirma após uma pausa. “Me equivoquei. Luigi encheu minha cabeça. Contudo, evite ser vista com Ettore. Não posso proibi-la de se relacionar com ele, mas posso pedir que tenha cautela. Há possibilidade de seu nome ser mencionado quando o rapaz se envolver em alguma polêmica. Sabemos que a mídia se alimenta de sensacionalismo e fake news.”
“Certo, papai,” respondo me sentindo cansada.
“Só mais uma coisa: não termine com Luigi. Pode surgir boatos que vocês terminaram por causa de Ettore.”
Como se eu pudesse terminar simplesmente. “Não há nem sequer boatos de mim e Ettore, pai.”
“Por precaução, minha filha.”
Covarde. Você é um covarde, papai.
MAGDALA
Luigi não foi embora. Encontro-o mexendo no seu celular sentado no sofá da sala de estar.
Enquanto me aproximo, ele se levanta com um sorrisinho mau-caráter. Não o espero falar algo: dou um tapa no seu rosto.
“Aqui você não pode me agredir,” mostro os dentes.
“Eu nunca te agredi. Aquelas vezes foram contextos diferentes.”
Me controlo para não dar um segundo tapa.
Ele abaixa mais a voz, “Acha que eu sou otário e te deixaria impune pelo que fez comigo na praia? Ameaçou atirar em mim e eu que sou o agressor.”
Perturbo seu ego, “Você me ter como namorada é um prêmio para se gabar, enquanto te ter como namorado é a coisa mais vergonhosa da minha vida. Alguém menciona que namoro Luigi Ferrari e eu me sinto humilhada.”
Seu maxilar flexiona. Ele quer me agredir.
“Como você se acha. Tão cheia de si.”
“Termina comigo,” eu sugiro sem mostrar meu desespero para que ele termine.
“Não farei isso, bebêzinha,” ele acaricia meu rosto e é tão nojento. “Nossos pais precisam da gente e nós precisamos um do outro mais do que você imagina.”
Eu quero chorar. Quero chorar tanto. Seguro minhas lágrimas até sentir a ardência no rosto. Por favor, eu só quero me livrar dele.
Luigi beija minha boca e é como ácido.
“Te mando mensagem mais tarde,” ele se despede finalmente.
Eu permaneço imóvel na sala.
ETTORE
Com luvas e quando o estacionamento da universidade estava vazio, implantei um GPS no carro de Luigi. Se ele estiver brincando com Chaewon, posso descobrir.
Avistei Magdala na faculdade após seu namorado sair, então estranhei ele ter ido para sua casa sem ela. Me fez questionar o que ele tinha pra fazer lá. Duvido que tenha sido para preparar alguma surpresa a namorada ou simplesmente passar um tempo com os sogros. Ele saiu cedo da casa, provando que não foi uma festinha ou coisa do tipo.
Ainda estou pensando nisso quando entro na boate pra iniciar a semana sem estresse causado por playboy abusivo.
MAGDALA
Estou bêbada e chapada e sozinha nesta boate barulhenta e lotada. Já peguei umas pessoas e quero pegar mais. Me arrependerei da ressaca de amanhã, mas eu não estava suportando ficar em casa. Nem os estudos e meu trabalho estavam me ajudando. A farra está ajudando? O suficiente pra eu querer continuar aqui.
As luzes neon multicoloridas me guiam enquanto caminho pela aglomeração, corpos esbarrando em mim. Não consigo prestar atenção na letra da música. O que chama minha atenção é Ettore.
Ele está no meio da multidão e beijando uma garota. Ai, estou supondo o gênero da pessoa. Merda. E porra que Ettore é tão gostoso beijando ela. Seria sexy assisti-lo fodendo alguém. Voyeurismo é um dos meus kinks, mas eu nunca quis assistir Luigi pegando outra garota, pois eu sei que ele faz isso às escondidas de mim. Hipócrita da minha parte? Foda-se! Meu namorado é um lixão!
Empurro Ettore como uma insolente.
“Magdala?”
“Oi,” me dirijo a pessoa bonitona de cabelo colorido e batom borrado que está com ele, o ignorando e mantendo uma distância respeitável dela. “Eu sei que ele é sexy e gostoso, mas eu também sou. Posso te beijar também?”
“Que grosseria,” Ettore comenta.
A pessoa parece não saber o que fazer.
“Desculpa. Desculpa mesmo,” começo a me afastar. “Tô sem noção. Continuem aí sendo dois gostosos.”
Sinto uma mão segurar meu braço gentilmente. Ettore não me para; ele me guia pra fora da bagunça.
“O que aconteceu contigo?” me pergunta em um espaço reservado, sem música tocando.
Eu sei lá onde estou. Só sei que o local não fede e que estou segura.
“Como assim?” pergunto de volta. “Tô farreando. Tu já me viu assim centenas de vezes.”
Ele está me observando, me analisando. Já vi esse seu jeito antes. É como se Ettore soubesse me ler. É tão estranho. É estranho, porém estranhamente não desconcertante.
“Como você enxerga minhas coisas, se eu sou tão boa em me esconder numa máscara?” Não estou pensando direito, só falando, acho.
Ele põe uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, “Talvez porque eu use uma máscara também.”
Sempre vi Ettore como aberto e livre, mas ele é uma mistura de coisas interessantes.
Olho pra sua gargantilha de couro estilo coleira, e digo, “Não precisa ser manso como a cadelinha que você se torna comigo.”
Ele dá uma risada. É genuína e bonita como o glitter nas suas pálpebras. Tenho só um restante de strass coladas no meu rosto.
Merda, como estou cansada. Me sento no chão me arrastando pela parede para não cair. Ettore me acompanha. Ficamos um do lado do outro, pernas esticadas, braços quase se tocando. Meus dedos dos pés se contorcem por ter passado tanto tempo no salto.
Ettore se inclina para remover meus sapatos. A atitude é tão... É boa. Faz me sentir bem. Suas mãos são cuidadosas. Meus olhos lacrimejam, mas respiro fundo antes que uma lágrima escorra. Estou cansada e agradecida e segura e perdida e leve... Uma completa bagunça.
“Antonella está aqui?” ele retorna a encostar as costas na parede. “Quem vai te levar pra casa? Luigi veio?”
“Meu chofer.”
“O que aconteceu?” cruza os braços.
Evito a pergunta, “Onde a gente tá?” A sala é escura, aveludada e tem um pequeno palco de pole dance.
“Na sala que aluguei por hoje. Vai querer ficar no chão? Tem um sofá bem ali.”
“O piso é confortável,” respondo, sem forças pra mudar de lugar. “Pessoas fazem sexo aqui?”
“Lambi teus seios e te fiz gozar no meu joelho numa praia pública, mas não farei sexo contigo enquanto não estiver sóbria, Magnólia.”
Sinto borboletas no estômago. Que idiota. É culpa do álcool e da droga.
“Tu deveria estar curtindo com aquela bonitona.” Desperdício estar cuidando de mim.
“Karina ficou preocupada contigo também.”
“Agora quero beijar ela ainda mais.” Verdade.
Ettore está sorrindo afetuosamente. Oh, ele é encantador, né?
“Como essa borboleta entrou aqui?”
“Que borboleta?” ele procura.
“Essa,” aponto. “Voando na nossa frente. Espera! Tem mais uma,” tento tocar.
“Efeitos da droga,” Ettore está rindo.
Mas Luigi e meus pais estão sentados no sofá. As borboletas desaparecem e as luzes escuras da sala ficam assustadoras. Eles estão aqui e olhando pra mim como demônios. Estão enfeiando o ambiente!
“Por que você trouxe eles aqui, Ettore?” estou chorando. “Por que chamou eles? Por que deixou eles entrarem?”
“Magdala, eles quem?”
“Me seguiram?” pergunto pro meu namorado e para os meus pais, querendo me levantar e avançar neles. “Agora serei vigiada assim, é?!”
“Magdala,” escuto Ettore me chamar, tentando tocar no meu antebraço.
Me levanto indo em direção aos demônios. Sou parada por Ettore segurando meu rosto com as duas mãos. Seus anéis são gelados na minha pele, mas meu corpo está mais gélido.
“Dala, olha pra mim. Só tem eu e você aqui. É uma alucinação. Foi a droga. Não é real. Você vai ficar bem, Magnólia.”
Sua voz preocupada me faz olhar nos seus olhos desesperados. Minha respiração está pesada. Minhas bochechas estão úmidas. Ettore acaricia os polegares nas minhas lágrimas.
“Não é real?”
“Não, Dala. Não tem ninguém aqui que vá te machucar,” ele responde suavemente.
“Mas eu vi eles.” Pareceu tão real...
“Quem são eles?”
“Luigi e meus pais.”
“O que aconteceu hoje, Magnólia?” ele me pergunta sem me soltar.
“Luigi foi contar pro meu pai sobre nós dois na praia.”
“Sobre eu e você?”
Eu e você. As luzes voltam a não ser assustadoras.
“Sim...” Coloco minhas mãos nos seus pulsos, “Meu pai não quer você me tocando. Mas eu quero você me tocando assim, Anjinho.” Tenho que calar a boca, mas estou me sentindo tão frágil, como se Etorre me soltasse, eu sumiria dentro daquele túnel imaginário.
“Obedeço somente a você, Magdala, nunca a ele.”
Se eu estivesse sóbria, eu o beijaria.
Somos interrompidos com batidas na porta.
“Acho que é a Karina querendo saber como você está. Pela sua segurança, já que você está em estado vulnerável com uma pessoa num quarto trancado.”
Fico comovida. As pessoas deveriam tomar conta umas das outras assim em farras. Decido atender a porta pra agradecer pessoalmente.
Quando estamos a sós novamente, Ettore conta, “Te deixarei em casa.”
“Tu sabe onde eu moro?”
“Algumas pessoas da faculdade sabem e sou uma delas.”
ETTORE
Em um minuto, eu estava beijando uma garota super atraente, no outro, eu estava sendo empurrado pela garota que eu não deveria achar super atraente. As coisas não ficaram engraçadas depois disso.
Eu uso uma máscara literalmente e metaforicamente. Deixei-a cair mais uma vez por causa de Magdala. Ela está bêbada e drogada e provavelmente não lembrará metade do que aconteceu esta noite. Eu que serei atormentado com as lembranças.
Mostro na portaria da mansão dos Delacorte que estou com a filha deles adormecida no meu banco passageiro, portanto, me permitem entrar.
Essa é a casa que eu deveria conseguir invadir para matar o assassino da minha mãe. Sinto uma sensação esquisita que aperta meu peito até quase eu ficar sem ar. Já odeio estar aqui. Parece um palácio, mas é uma mansão mal-assombrada macabra.
Queria não estar me sentindo assombrado, porque Magdala me chamou de ‘Anjinho’ pela segunda vez e isto deveria tirar meu ódio por agora. Na primeira vez, senti um choque de alegria. Na segunda vez... Eu quis ser seu anjo da guarda. Mas eu tenho que ser seu assassino. Não posso permitir que os Delacorte continuem sendo meus fantasmas.
Falando nos diabos... Estão ambos nos esperando na escada da entrada onde paro o carro. Tiberius tem um olhar desconfiado quando saio do meu Mustang. Não falo nada, apenas dou a volta no meu carro para abrir a porta do passageiro e ajudar Magdala a sair.
“Chegamos na sua casa, Magnólia,” aviso num tom que somente ela pode ouvir, tirando seu cinto de segurança.
“Mas eu não quero estar aqui,” ela reclama, sonolenta. “Me leva pra sua casa.”
Não consigo evitar a pequena risada que escapa de mim. Magdala se sente segura comigo nesse nível ou só quer fugir dos pais? De qualquer maneira, quando a imagino no meu apartamento, sinto um sentimento irracional de querê-la todos os dias lá, cuidando dela não-sóbria e sóbria.
“Por que essa demora? Como ela está?” escuto Elisabetta questionar.
Segurando Magdala, puxo-a gentilmente pra fora do carro. “Ela só não quer andar,” minto.
Quando alcançamos o primeiro batente da escada, passo ela a dois funcionários que ajudam a levá-la para dentro de casa. Magdala vai se distanciando e eu desejando que ela não tenha que lidar com seus pais pelo resto da noite. Ela está vulnerável demais pra lidar com merdas.
Pela expressão e postura, Tiberius espera explicações.
“O senhor e a senhora não precisam se preocupar com nada. Nos cruzamos na boate, vi seu estado e resolvi trazê-la em segurança para casa. Ela conseguiu me informar o endereço.”
“Ficamos agradecidos,” Elisabetta não aparenta muito agradecida.
Eles não me querem com sua filha, ela me revelou. É como se eu e Magdala tivéssemos um romance proibido.
“Algum paparazzi avistou vocês saindo da boate?” Tiberius me pergunta quando estou me retirando.
“Acredito que não, senhor. O estacionamento era fechado. Como eu disse: não precisa se preocupar.”
“Sim, claro.”
Tenho vontade de provocá-lo, perguntar se ele não tem vergonha de ter ficado do lado do genro que dedurou sua filha como se ela fosse um problema que merecesse punição.
Tiberius desce os olhos pra minha gargantilha antes de falar, “Estamos gratos por ter trazido nossa filha em segurança.”
“Sem problema,” respondo pensando que deveria ser um problema eu achar que Magdala não é um. “Tenham uma boa noite.” Serei o pesadelo de vocês.
